67 e o renascimento da arte pela arte

Assim como todas as pessoas preguiçosas dessa década, eu passo algumas horas do meu dia no tiktok. Entre todos os inúmeros vídeos que eu pulo, está o infame “67”. Admito que desde o início desse meme – se é que podemos chamar assim – eu nunca entendi a graça de alguém mexer as mãos daquele jeito ridículo enquanto abre um sorrisinho de canto esperando eu rir. Porém, em algum momento, a trend mudou, uma mulher americana viajando por um país no sudeste asiático passa por uma excursão escolar, eles não possuíam nenhuma língua em comum, mas foi só ela começar a fazer aquele gesto, sem nem precisar falar nada, todas as crianças abriram um sorriso de orelha á orelha e retribuíram a piada.

Esse era o gatilho que faltava para mudar a minha opinião. Finalmente entendi que o objetivo do 67 não é comunicar algo, nunca se importou com a mensagem, sua função é o meio pelo meio, o importante é criar um canal de comunicação, não a finalidade desse canal. Sua filosofia é surpreendentemente parecida com um dos movimentos artísticos que mais me encantam: o dadaísmo. Esse movimento tinha como lema “a destruição também é criação”, ele questionava a arte e buscava se aproximar do caótico e da imperfeição. 

“Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípios contra manifestos” – Tristan Tzara

Um exemplo clássico que acredito que nem preciso me aprofundar é o penico do Duchamp. Ele não tenta comunicar algo, só desafiar até onde o intelectualismo pode se convencer de sua superioridade, como as pessoas se esforçariam para tentar atribuir sentido ao que viam. Essa era a graça, não possuía sentido, era a arte de ser por ser no seu estado mais sólido e direto. Tenho certeza que caso ele ainda estivesse vivo faria uma dessas músicas brainrot 67 para ser a trilha sonora de suas exposições e os entusiastas da arte aplaudiram em pé enquanto tentam atribuir um grande significado ao que veem.

Mas nossa análise pode ir muito além, a beleza do 67 não fica presa apenas nesse teor artístico, sua presença é quase profética. Ao resgatarmos a bíblia, vemos a história da Torre de Babel  que é usada para explicar a origem dos mais diferentes idiomas no mundo. Nela, todas as pessoas falavam uma única língua, podiam se comunicar a qualquer momento, a humanidade possuía um entendimento recíproco. Porém, numa tentativa de alcançar o céu, os homens se organizaram e começaram a construir uma enorme torre. Quando descobriu o que estava acontecendo, Deus, para castigá-los, fez com que falassem línguas diferentes para que jamais voltassem a se entender.

O 67 representa a volta desse monumento de esperança; uma linguagem universal que possibilita que todos se conectem sem esforço, que naturalmente se entendam.

Nossa geração, aqueles que nasceram na primeira década do milênio, já viram diversas tentativas falhas da criação dessa linguagem única entre 2012 e 2016: a era de ouro do nonsense escrachado distribuído em escala mundial. Todos se uniam por meio de vídeos no youtube de 2 á 3 minutos com músicas e visuais repetitivos e marcantes. O meu exemplo favorito era o “Pen Pineapple Apple Pen”, assistia esse vídeo todo dia, fazia referência com meus amigos e postava memes com ele no facebook.  Porém, esses vídeos pecavam em algo que só a era do tiktok poderia proporcionar: um símbolo de 3 segundos que pode ser distribuído e identificado sem som a qualquer momento.

Torço que o 67 ainda demore para cair em desuso e, quando eventualmente acontecer, surja um novo 67 para unir a humanidade mais uma vez. 

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