Fui em um restaurante, há quase um ano, acompanhada por nem lembro mais quem e pedi um cheesecake, para minha surpresa o que eu recebi foi uma torta Basca. A textura é diferente, muito mais firme, e não tem aquela fina camada de bolacha triturada na base. Fiquei encantada por essa nova possibilidade que outrora não conhecia.

Infelizmente, meu tempo como entusiasta e degustadora de tortas Bascas em confeitarias e patisseries foi curto… há alguns meses precisei voltar a morar na casa dos meus pais. Lá não existe essa vida pseudoboemita que levo na capital, com festinha cool todo fim de semana, provando bares e restaurantes indicados pela revista Veja gastronomia. Agoniada, precisei reinventar esses pequenos prazeres egoístas da vida, e então decidi voltar a cozinhar. Mas o que cozinhar? Que pergunta boba de se fazer quando a torta Basca existe.
600g de Cream Cheese
300ml de creme de leite fresco
1 xícara de chá de açúcar
4 gemas de ovo
1 colher de sopa de farinha de trigo peneirada
1 pitada pouco generosa de sal
todas as frutas mais carnudas que você encontrar na quitanda perto da sua casa
1 batedeira que aguente bater por 30 minutos
1 assadeira redonda com aquele fundo genial que pode ser separado do resto
muito papel manteiga
Gastei um dia inteiro dentro da cozinha e finalmente ficou pronta. Toda minha família provou e aprovou. Realmente ficou deliciosa, acompanhada de uma geleia de morango tão doce que todos nós comíamos rezando. A demanda do povo foi tão grande que fiz 4 tortas Bascas em uma janela de 10 dias. No entanto, para a minha mãe que não come açúcar só restava passar vontade. Decidi fazer o que talvez foi a maior demonstração de amor que já direcionei à minha genitora: comprei meio quilo de adoçante em pó e estudei como fazer modificações na receita para a textura da torta se manter a mesma.


Passei mais um dia inteiro da cozinha e cheguei a uma conclusão irrefutável: quem inventou o adoçante com certeza está queimando no inferno. Fiquei assustada, nem mesmo o amor pela minha mãe foi suficiente para perdoar a existência dessa aberração que finge ser doce, que trouxe amargor para um momento que deveria ser tão feliz a ponto de deixar a mesa em um clima fúnebre. Minha mãe, provavelmente por já estar acostumada com tal tortura, comia lambendo os beiços.
A culpa começou a me consumir, ela havia amado tanto, mas eu só conseguia pensar em como nunca mais faria um doce sem açúcar pelo resto da minha vida. Que pessoa ruim essa que não pode comer um pedaço de doce de gostosura mediana para deixar a própria mãe feliz. E então, para sair dessa situação agoniante, enchi meu pulmão de ar e falei uma das coisas mais covardes que alguém poderia falar: “acho que não vou mais fazer torta Basca, comi tanto que enjoei”.
Fazem oito meses que nunca mais foram vistas tortas Bascas na casa dos meus pais. E sendo sincera, não me arrependo da minha decisão.

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